Infelizmente ainda vivemos em uma sociedade que tem por hábito julgar, condenar e decidir qual o padrão que todos devem seguir. Assim raças, etnias lutam entre si, afirmando uma ser superior a outra; pessoas mais bem remuneradas acreditam que são ricas por competência e dedicação, quem é pobre é porque é vadio, ignorante e preguiçoso; hetero e homossexuais discutem sobre opção sexual; homens e mulheres, etc.
Entre as formas de preconceito e discriminação encontramos o religioso. Como nos portamos diante deste preconceito? Como devemos atuar?
Fui levado a escrever sobre este tema, pois tive algumas experiências nos últimos dias que me fizeram relembrar histórias pessoais. Assim, quero compartilhá-las primeiro, para depois tentarmos juntos responder o questionamento acima.
Eu trabalhava com um grupo de pessoas extremamente ligadas a uma outra religião, e que não tinham bons olhos para as religiões espiritualistas, aliás não tinham bons olhos para com nenhuma outra religião. A não ser por mim todos eram desta outra religião.
Por alguma razão nunca me abordavam sobre minha opção religiosa. As poucas vezes que me abordavam eu desviava do assunto, ou respondia que era espírita.
Entretanto chegou um momento em que tinha decidido aceitar me preparar para o sacerdócio, para ser feito Pai-de-Santo. Foi então que me perguntei:
- “como responderei aos questionamentos agora em diante? Se falar que sou Umbandista perderei o meu emprego? Perderei a confiança dos demais?”
Quando faltavam uns 30 dias para a minha feitura, mais ou menos, recebi intuitivamente a resposta do meu dilema. Se aproximava o Pai Tobias de Guiné, um preto-velho, e assim me contava uma história por meio de imagens e pensamentos:
Quando Jesus morreu na cruz, sacerdotes de outras religiões, os romanos, e muitas pessoas queriam provar a todos que Jesus era um louco e morrera como tal. A crucificação, o calvário, foram para humilhar, para demonstrar que aquela postura não era bem vinda. Pretendiam matar e enterrar não apenas Jesus, mas o que ele representava para a humanidade.
Tão forte foi a perseguição que Jesus afirmou que um dos seus mais fiéis apóstolos iria negá-lo, e assim Pedro negou Jesus por três vezes.
Mas, Pedro passou a pregar as palavras de Jesus, assim como os demais apóstolos, e milhares e milhares de pessoas continuavam ou começavam a seguir os ensinamentos do Mestre Jesus. Roma, sentindo-se ameaçada, começa uma caça aos cristãos, prendia-os, açoitava-os, matava-os. Muitos serviam de diversão nas arenas e circos romanos, onde eram devorados por leões, e outros animais, eram assassinados por gladiadores em praças. Mas poderiam evitar a morte, o sofrimento, bastava negarem Jesus, bastava para isto deixar de acreditar em Jesus. Mas, estes homens e mulheres não negaram, não renegaram, pelo contrário assumiam suas condições de discípulos, e começavam a rezar, a demonstrar a sua fé naquele momento tão desesperador.
O que seria da história que conhecemos hoje sobre o cristianismo se não fossem os seguidores de Jesus? Se estes primeiros cristãos tivessem negado Cristo será que hoje teríamos a dádiva de conhecê-lo, de termos este mestre como exemplo?
Por fim, já em lágrimas, pois as imagens eram fortes e muito intensas, este humilde servo de Deus, dos Orixás e de Jesus Cristo, chamada Tobias, me falou assim:
Será que você será jogado aos leões? Será que você receberá a tortura? Será que morrerá?
O meu maior perigo era perder o emprego, receber um pouco de aversão ou de desrespeito dos demais. Assumir minha condição de umbandista poderia ajudar a quebrar o preconceito, mostrar a Umbanda, e lutar para que as pessoas percebessem que não importa o caminho (religião), mas sim o destino (iluminação pelo amor).
Não bastava para isto falar que era espírita, afinal espiritismo é outra religião. Era preciso assumir minha condição de Umbandista. Então, decidi, se me perguntarem falarei a verdade.
No outro dia mais de três pessoas do trabalho me questionaram. Coincidência, não é mesmo. E minha resposta foi que era umbandista, muito envergonhado e ainda tímido. A reação foi absolutamente positiva, os três queriam ir visitar o terreiro, conhecer a Umbanda.
Tive depois problemas com o trabalho, e alguns desentendimentos sérios com o meu chefe, mas o fato de ser umbandista não foi o principal motivo.
Aprendi que se não fizermos de nós exemplos para a nossa sociedade, instrumentos desmistificadores da Umbanda teremos por muito mais tempo o preconceito. Quando assumimos a Umbanda como a nossa fonte de fé, com certeza iremos sofrer preconceitos, mas também seremos instrumentos para que a discriminação um dia acabe.
Sei que para alguns assumir a condição de umbandista é muito difícil, mas o dia que estiver preparado e fizer perceberá como cada um de nós pode contribuir para uma sociedade mais solidária, e sem preconceitos.
Que os Orixás possam iluminar a todos, e que possamos todos trabalhar com esta luz para trazermos respeito, paz e solidariedade em nossa Terra.
Saravá, sou umbandista, com amor, com fé, e por isto agradeço a Deus, aos Orixás e a todas as entidades.
|
Ter, 29 de Junho de 2010
Escrito por Pai Caetano
Ter, 29 de Junho de 2010
Escrito por Pai Caetano
Seg, 31 de Agosto de 2009
Escrito por Administrator
No início de nossos trabalhos do ano de 2009 o Sr. Exu Marabô determinou que durante este ano deveríamos fazer algumas reflexões, periódicas, para que compreendêssemos a Umbanda mais intensamente. Isto é, cada mês os filhos do TULAP e quem quisesse compartilhar conosco desta tarefa, teremos um tema para meditar e estudar . Assim o primeiro tema foi o preconceito.
Devemos observar nossos pensamentos, nossas palavras e nossas ações para observarmos como somos preconceituosos.
O preconceito racial, a discriminação social, religiosa, sexual, da opção sexual, étnica, enfim toda a forma de discriminação. Nosso querido amigo e guardião Sr. Marabô começou dizendo que todos nós escondíamos de nós mesmos estes sentimentos, estes pensamentos, e que toda e qualquer discriminação é fruto e filho do orgulho.
Quando achamos que alguém é inferior seja pela cor de sua pela, pelas suas opções, pela sua religião, etc., é porque supomos que nós somos os escolhidos e os certos, assim este sentimento claramente é o orgulho.
Quando os brancos se achavam superiores, chegaram a pregar que os negros não eram humanos, e que apenas os caucasianos (ditos brancos) eram os verdadeiros filhos de Deus. Isso se deu de forma semelhante aos indígenas e aos orientais. Era uma tentativa de justificar as barbaridades e atrocidades cometidas por estes senhores para almejarem lucros a custo de vidas. Hoje muita se luta para que todos possamos compreender que todos somos irmãos com capacidades iguais. Muita se fala, se discute para que possamos eliminar de nossa cultura o preconceito escondido em piadas, brincadeiras e refletido no mercado de trabalho. O racismo ainda está presente em muitas famílias. Muitos ainda acreditam que os homens são melhores e mais inteligentes que as mulheres, discriminação sexual. Outros não toleram a homossexualidade, condenam-na, tentam marginalizá-la, é a discriminação pela opção sexual. Outras pessoas acham que os pobres e miseráveis assim o são por preguiça, falta de inteligência, entre outros adjetivos que prefiro omitir, é a discriminação social. Ainda existem aqueles que afirmam que somente os seus irmãos de fé são os escolhidos por Deus, e que o seu Deus é o único verdadeiro, é a discriminação religiosa. Enfim, muitas são as formas e os caminhos para que nossa mente transite pelo orgulho. Nada justifica a um ser se sentir superior, escolhido ou melhor do que outro, pois todos somos feitos da mesma carne, da mesma matéria, e muito mais do que isto todos somos irmãos em espírito. Curioso é percebermos que a discriminação só acontece na aparência, no supérfluo, pois estes senhores da verdade não discriminam o vaidoso, o orgulhoso, o egoísta, etc., deixando claro como estes sentimentos de discriminação e preconceitos são frutos de nossas imperfeições. Quando exercemos o preconceito, a discriminação, deixamos de exercer o amor, e passamos a semear o ódio e a intolerância. Os grandes espíritos que habitaram nosso planeta demonstraram que abolir o preconceito, e amar indistintamente a todos é a única maneira de encontrarmos a paz e a felicidade. Jesus Cristo sempre deixou isto claro, em passagens como a da mulher adúltera, a ida ao vale dos leprosos, a pregação da verdade do Deus-Uno para os povos não judeus, afinal nenhum povo era o escolhido, todos poderíamos encontrar a salvação. Entre outras passagens deixaram claro a pregação do Cristo contra o preconceito. Mahtma Gandi ao pregar a união da Índia, pedindo a união dos irmão indianos, sendo eles mulçumanos, hindus, budistas ou cristãos em torno de uma pátria livre das barreiras e dos preconceitos, mostrou na prática o amor incondicional. Na Umbanda em todos os momentos recebemos provas e inspirações contra o preconceito. Os grandes sábios da Umbanda, os “administradores” da Umbanda são os nossos ancestrais, nossos queridos Pretos-velhos, espíritos que se mostram e se manifestam negros, africanos ou afro-descendentes. Os representantes dos Orixás que trazem a força da natureza são os indígenas nossos pais e mães caboclos, os orientais são os que trazem a força da cura, os nordestinos têm espaço garantido na corrente dos Baianos trazendo alegria, sabedoria e combate às energias deletérias, as entidades femininas, seja de qual povo for terão a mesma força e importância que as entidades masculinas em nossos ritos. Ou seja, vivemos em uma religião que nos ensina a todo o momento para não termos preconceito, seja ele regional, étnico, racial ou de gênero. Uma religião que nos ensina a amar, indistintamente. E nos ensina também a amarmos todos os seres vivos. Respeitar e amar a todos indistintamente é isto. Amar todas as formas de vida, sejam elas animais humanos ou não humanos, sejam eles vegetais, fungos, etc. Amar e respeitar o próximo, a natureza e acima de tudo entender que tudo está interligado e integrado, e que só compreendendo esta interligação, é que nos libertaremos de qualquer preconceito. Que todos os umbandistas sejam exemplos em suas comunidades combatendo o preconceito, lutando pela paz e exercendo sempre o amor. Saravá a todos. Ter, 29 de Junho de 2010
Escrito por Pai Caetano
|
|
|
Quais Orixás são cultuados na Umbanda? Por que estes Orixás? Quantos são?
No início de nossos trabalhos do ano de 2009 o Sr. Exu Marabô determinou que durante este ano deveríamos fazer algumas reflexões, periódicas, para que compreendêssemos a Umbanda mais intensamente. Isto é, cada mês os filhos do TULAP e quem quisesse compartilhar conosco desta tarefa, teremos um tema para meditar e estudar .
Antes quero lhe fazer um convite: toda vez que formos debater um tema polêmico dê uma lida no texto que explica estes temas polêmicos "