Domingo, 05 de Fevereiro de 2012
Marcador:preconceito

Infelizmente ainda vivemos em uma sociedade que tem por hábito julgar, condenar e decidir qual o padrão que todos devem seguir. Assim raças, etnias lutam entre si, afirmando uma ser superior a outra; pessoas mais bem remuneradas acreditam que são ricas por competência e dedicação, quem é pobre é porque é vadio, ignorante e preguiçoso; hetero e homossexuais discutem sobre opção sexual; homens e mulheres, etc.

Entre as formas de preconceito e discriminação encontramos o religioso. Como nos portamos diante deste preconceito? Como devemos atuar?

Fui levado a escrever sobre este tema, pois tive algumas experiências nos últimos dias que me fizeram relembrar histórias pessoais. Assim, quero compartilhá-las primeiro, para depois tentarmos juntos responder o questionamento acima.
Eu trabalhava com um grupo de pessoas extremamente ligadas a uma outra religião, e que não tinham bons olhos para as religiões espiritualistas, aliás não tinham bons olhos para com nenhuma outra religião. A não ser por mim todos eram desta outra religião.

Por alguma razão nunca me abordavam sobre minha opção religiosa. As poucas vezes que me abordavam eu desviava do assunto, ou respondia que era espírita.
Entretanto chegou um momento em que tinha decidido aceitar me preparar para o sacerdócio, para ser feito Pai-de-Santo. Foi então que me perguntei:

- “como responderei aos questionamentos agora em diante? Se falar que sou Umbandista perderei o meu emprego? Perderei a confiança dos demais?”

Quando faltavam uns 30 dias para a minha feitura, mais ou menos, recebi intuitivamente a resposta do meu dilema. Se aproximava o Pai Tobias de Guiné, um preto-velho, e assim me contava uma história por meio de imagens e pensamentos:
Quando Jesus morreu na cruz, sacerdotes de outras religiões, os romanos, e muitas pessoas queriam provar a todos que Jesus era um louco e morrera como tal. A crucificação, o calvário, foram para humilhar, para demonstrar que aquela postura não era bem vinda. Pretendiam matar e enterrar não apenas Jesus, mas o que ele representava para a humanidade.

Tão forte foi a perseguição que Jesus afirmou que um dos seus mais fiéis apóstolos iria negá-lo, e assim Pedro negou Jesus por três vezes.

Mas, Pedro passou a pregar as palavras de Jesus, assim como os demais apóstolos, e milhares e milhares de pessoas continuavam ou começavam a seguir os ensinamentos do Mestre Jesus. Roma, sentindo-se ameaçada, começa uma caça aos cristãos, prendia-os, açoitava-os, matava-os. Muitos serviam de diversão nas arenas e circos romanos, onde eram devorados por leões, e outros animais, eram assassinados por gladiadores em praças. Mas poderiam evitar a morte, o sofrimento, bastava negarem Jesus, bastava para isto deixar de acreditar em Jesus. Mas, estes homens e mulheres não negaram, não renegaram, pelo contrário assumiam suas condições de discípulos, e começavam a rezar, a demonstrar a sua fé naquele momento tão desesperador.

O que seria da história que conhecemos hoje sobre o cristianismo se não fossem os seguidores de Jesus? Se estes primeiros cristãos tivessem negado Cristo será que hoje teríamos a dádiva de conhecê-lo, de termos este mestre como exemplo?

Por fim, já em lágrimas, pois as imagens eram fortes e muito intensas, este humilde servo de Deus, dos Orixás e de Jesus Cristo, chamada Tobias, me falou assim:
Será que você será jogado aos leões? Será que você receberá a tortura? Será que morrerá?

O meu maior perigo era perder o emprego, receber um pouco de aversão ou de desrespeito dos demais. Assumir minha condição de umbandista poderia ajudar a quebrar o preconceito, mostrar a Umbanda, e lutar para que as pessoas percebessem que não importa o caminho (religião), mas sim o destino (iluminação pelo amor).

Não bastava para isto falar que era espírita, afinal espiritismo é outra religião. Era preciso assumir minha condição de Umbandista. Então, decidi, se me perguntarem falarei a verdade.

No outro dia mais de três pessoas do trabalho me questionaram. Coincidência, não é mesmo. E minha resposta foi que era umbandista, muito envergonhado e ainda tímido. A reação foi absolutamente positiva, os três queriam ir visitar o terreiro, conhecer a Umbanda.

Tive depois problemas com o trabalho, e alguns desentendimentos sérios com o meu chefe, mas o fato de ser umbandista não foi o principal motivo.

Aprendi que se não fizermos de nós exemplos para a nossa sociedade, instrumentos desmistificadores da Umbanda teremos por muito mais tempo o preconceito. Quando assumimos a Umbanda como a nossa fonte de fé, com certeza iremos sofrer preconceitos, mas também seremos instrumentos para que a discriminação um dia acabe.

Sei que para alguns assumir a condição de umbandista é muito difícil, mas o dia que estiver preparado e fizer perceberá como cada um de nós pode contribuir para uma sociedade mais solidária, e sem preconceitos.

Que os Orixás possam iluminar a todos, e que possamos todos trabalhar com esta luz para trazermos respeito, paz e solidariedade em nossa Terra.

Saravá, sou umbandista, com amor, com fé, e por isto agradeço a Deus, aos Orixás e a todas as entidades.

 

Quais Orixás são cultuados na Umbanda? Por que estes Orixás? Quantos são?

Estes questionamentos acompanham a todos nós umbandistas. Desde aqueles que estão chegando a conhecer a Umbanda hoje, como aqueles que têm mais tempo de Umbanda que nós de vida.

Muitos autores, pais e mães-de-santo responderam estes questionamentos. Mas, dificilmente encontraremos a mesma resposta nas várias correntes de Umbanda.

 



Uma coisa certa é que há cinco Orixás incontroversos, ou seja, estão presentes em todas as matizes e correntes de Umbanda, são eles:

Oxalá, Xangô, Yemanjá, Ogum e Oxossi.

A diferença então reina em quantos são e quais são os demais.
Na grande maioria das casas, e das correntes de pensamento, teremos o número sete como um número limitador destes Orixás. Assim teremos os cinco já mencionados e outros dois Orixás.

Entretanto todos os autores, de alguma forma, acabam tentando incluir nestas duas “cadeiras” vagas pelo menos mais quatro Orixás: Omolu/Obaluaê (Yorimá), Nanã, Iansã (Oyá) e Oxum, outros ainda trazem um quinto para a “disputa” pelas duas vagas, o Orixá Ibeji (Yori). O que fazer diante deste dilema?

Assim uns criaram os Orixás menores, outros os raios onde em cada raio poderia haver mais de um Orixá, outros 7 pares de Orixás, entre outras engenharias para ampliar o número de Orixás, ampliando o número de 7.

Por fim encontraremos casas e autores que não se limitam ao número 7, e que simplesmente resolvem o problema com um número maior de Orixás. Nestes casos é mais comum encontrarmos 9 Orixás.

Dado o problema, a polêmica, como resolvemos isto em nossa casa?

Para responder esta questão tenho que trazer aqui como em minha raiz esta questão está posta.

Por minha raiz entendam a tradição das casas que antecedem a minha e das quais saíram os pais e mães-de-santo. Cultuam-se como Orixás os cinco incontroversos (Oxalá, Ogum, Oxossi, Xangô e Yemanjá) e Iansã e Oxum. Nesta composição acredito que há um equilíbrio muito bonito e porque não, de certa forma, perfeito. Temos os Orixás masculinos Ogum, Oxossi e Xangô; e femininos Yemanjá, Iansã e Oxum. E por fim temos Oxalá unindo o lado maternal e o paternal de Deus.

Em nossa casa temos estes Orixás cultuados.

Mas e Omolu/Obaluaê e Nanã? São Orixás? O que são?

Esta foi uma questão que em minha preparação para assumir o Terreiro de Umbanda Luz, Amor e Paz, Cabana do Pai Tobias de Guiné, como uma das mais importantes.

Poderia eu abrir mão do número 7? Não seriam sete os momentos da criação e assim sete não seriam os Orixás? Não são sete as linhas da Umbanda?

Para incrementar o problema devo dizer que minha relação com o Sr. Omolu/Obaluaê é muito forte e estreita, acredito, como acreditava, que nenhum Orixá, dos mencionados, trazia em si as forças e os axés do Sr. Omolu. Nenhum dos 7 Orixás representava como seu ponto de força a terra, bem como nenhum dos Orixás apresentava características que tratavam da vida e da morte carnal como Omolu e como Nanã.

Assim, pedi para os Orixás, por meio das entidades, que trouxessem uma resposta a este meu anseio. E a resposta que me veio foi a que hoje apresento a todos.

Os Orixás que assumem a cabeça de um filho são sete, pois sete são os momentos da criação, sete é o princípio universal da união entre a matéria (quatro ou princípio quaternário) e o espírito (três, ou princípio ternário ou trino, ou ainda a trindade divina). Assim em minha casa assumem a cabeça de um filho Oxalá, Yemanjá, Oxum, Ogum, Xangô, Iansã e Oxóssi.

Mas, cultuamos como Orixás o Sr. Omolu/Obaluaê e Nanã Buruquê. São Orixás, ou seja, são manifestações, emanações e qualidades diretas de Deus.

Em nossa casa 9 são os Orixás cultuados, porém 7 são os Orixás que assumem a cabeça de um filho ou de uma filha. E isto em nada desmerece ou muda o culto a estes Orixás, são emanações de Deus, e como tal não existe um mais importante do que outro.

Saravá as 7 linhas da Umbanda, saravá os 9 Orixás da Umbanda.

 

No início de nossos trabalhos do ano de 2009 o Sr. Exu Marabô determinou que durante este ano deveríamos fazer algumas reflexões, periódicas,  para que compreendêssemos a Umbanda mais intensamente. Isto é, cada mês os filhos do TULAP e quem quisesse compartilhar conosco desta tarefa, teremos um tema para meditar e  estudar . 

Assim o primeiro tema foi o preconceito. 
Devemos observar nossos pensamentos, nossas palavras e nossas ações para observarmos como somos preconceituosos. 
 
O preconceito racial, a discriminação social, religiosa, sexual, da opção sexual, étnica, enfim toda a forma de discriminação. Nosso querido amigo e guardião Sr. Marabô começou dizendo que todos nós escondíamos de nós mesmos estes sentimentos, estes pensamentos, e que toda e qualquer discriminação é fruto e filho do orgulho.


Quando achamos que alguém é inferior seja pela cor de sua pela, pelas suas opções, pela sua religião, etc., é porque supomos que nós somos os escolhidos e os certos, assim este sentimento claramente é o orgulho. 

Quando os brancos se achavam superiores, chegaram a pregar que os negros não eram humanos, e que apenas os caucasianos (ditos brancos) eram os verdadeiros filhos de Deus. Isso se deu de forma semelhante aos indígenas e aos orientais. Era uma tentativa de justificar as barbaridades e atrocidades cometidas por estes senhores para almejarem lucros a custo de vidas. 

Hoje muita se luta para que todos possamos compreender que todos somos irmãos com capacidades iguais. Muita se fala, se discute para que possamos eliminar de nossa cultura o preconceito escondido em piadas, brincadeiras e refletido no mercado de trabalho. O racismo ainda está presente em muitas famílias. 

Muitos ainda acreditam que os homens são melhores e mais inteligentes que as mulheres, discriminação sexual. Outros não toleram a homossexualidade, condenam-na, tentam marginalizá-la, é a discriminação pela opção sexual. Outras pessoas acham que os pobres e miseráveis assim o são por preguiça, falta de inteligência, entre outros adjetivos que prefiro omitir, é a discriminação social. Ainda existem aqueles que afirmam que somente os seus irmãos de fé são os escolhidos por Deus, e que o seu Deus é o único verdadeiro, é a discriminação religiosa. 

Enfim, muitas são as formas e os caminhos para que nossa mente transite pelo orgulho. Nada justifica a um ser se sentir superior, escolhido ou melhor do que outro, pois todos somos feitos da mesma carne, da mesma matéria, e muito mais do que isto todos somos irmãos em espírito. Curioso é percebermos que a discriminação só acontece na aparência, no supérfluo, pois estes senhores da verdade não discriminam o vaidoso, o orgulhoso, o egoísta, etc., deixando claro como estes sentimentos de discriminação e preconceitos são frutos de nossas imperfeições. 

Quando exercemos o preconceito, a discriminação, deixamos de exercer o amor, e passamos a semear o ódio e a intolerância. Os grandes espíritos que habitaram nosso planeta demonstraram que abolir o preconceito, e amar indistintamente a todos é a única maneira de encontrarmos a paz e a felicidade. 

Jesus Cristo sempre deixou isto claro, em passagens como a da mulher adúltera, a ida ao vale dos leprosos, a pregação da verdade do Deus-Uno para os povos não judeus, afinal nenhum povo era o escolhido, todos poderíamos encontrar a salvação. Entre outras passagens deixaram claro a pregação do Cristo contra o preconceito. 

Mahtma Gandi ao pregar a união da Índia, pedindo a união dos irmão indianos, sendo eles mulçumanos, hindus, budistas ou cristãos em torno de uma pátria livre das barreiras e dos preconceitos, mostrou na prática o amor incondicional. 

Na Umbanda em todos os momentos recebemos provas e inspirações contra o preconceito. Os grandes sábios da Umbanda, os “administradores” da Umbanda são os nossos ancestrais, nossos queridos Pretos-velhos, espíritos que se mostram e se manifestam negros, africanos ou afro-descendentes. Os representantes dos Orixás que trazem a força da natureza são os indígenas nossos pais e mães caboclos, os orientais são os que trazem a força da cura, os nordestinos têm espaço garantido na corrente dos Baianos trazendo alegria, sabedoria e combate às energias deletérias, as entidades femininas, seja de qual povo for terão a mesma força e importância que as entidades masculinas em nossos ritos. 

Ou seja, vivemos em uma religião que nos ensina a todo o momento para não termos preconceito, seja ele regional, étnico, racial ou de gênero. Uma religião que nos ensina a amar, indistintamente. E nos ensina também a amarmos todos os seres vivos. Respeitar e amar a todos indistintamente é isto. Amar todas as formas de vida, sejam elas animais humanos ou não humanos, sejam eles vegetais, fungos, etc. Amar e respeitar o próximo, a natureza e acima de tudo entender que tudo está interligado e integrado, e que só compreendendo esta interligação, é que nos libertaremos de qualquer preconceito. 

Que todos os umbandistas sejam exemplos em suas comunidades combatendo o preconceito, lutando pela paz e exercendo sempre o amor. 

Saravá a todos.

 

Antes quero lhe fazer um convite: toda vez que formos debater um tema polêmico dê uma lida no texto que explica estes temas polêmicos "temas polêmicos".

Recentemente, em alguns sites e em alguns encontros, pairou sobre a nossa comunidade umbandista o debate, já realizado diversas outras vezes, sobre o homossexualismo, em especial sobre a possibilidade da celebração do casamento entre pessoas do mesmo sexo na Umbanda, ou como preferem alguns se a Umbanda poderia, ou deveria, abençoar estes relacionamentos.

Antes de falarmos de casamento é preciso compreender, ou buscar entender, como a Umbanda vê as questões do homossexualismo. Logicamente não sou eu quem dirá como a Umbanda pensa, afinal nem que quisesse teria este direito ou a capacidade de fazê-lo. Mas, posso dizer como a Umbanda que pratico, a Umbanda de nosso terreiro - Cabana do Pai Tobias de Guiné - vê, entende e ensina sobre este tema.

Quando falamos de homossexualidade imediatamente as mentes reduzem a questão a seus aspectos sexuais, ou seja, pessoas do mesmo sexo realizando práticas sexuais. Mas, a questão da opção sexual vai muito além da simples relação sexual, do coito propriamente dito.

A questão envolve a afetividade, a relação de atração, de amor a outra pessoa com a qual queremos nos relacionar, queremos construir uma vida em conjunto. É o amor conjugal, a que estamos nos referindo.

A questão começa ao pensarmos como vemos os espíritos. O espírito tem sexo? Nascemos um espírito masculino ou feminino? Em nossas inúmeras reencarnações sempre vestimos a carne com o mesmo sexo biológico?

Eu penso que reencarnamos em diversas roupagens materiais, hora em uma roupa biologicamente masculina, hora em uma biologicamente feminina. Entretanto, temos uma maior tendência em reencarnarmos em determinada roupagem.

Então será que quando reencarnamos na roupagem adversa ao nosso costume acabamos por sentir atração pelo mesmo sexo? Será esta a razão da homossexualidade? Os muitos espíritas (kardecistas) que conheço, e assim fui ensinado quando espírita, entendem que a homossexualidade é, entre outras teorias, como uma inversão dolorosa do sexo, ou seja, aquele espírito que teve inúmeras reencarnações como homem, e hoje encontra-se em um corpo de mulher teria atrações por outras mulheres. Apesar de simplificar esta definição, acredito que a tenha feito de forma apropriada, caso contrário por favor sintam-se a vontade em questioná-la.

Hoje já não tenho esta convicção. Acredito que estas questões sexuais, de opção sexual, estão muito atreladas a nossa cultura, aos nossos costumes. Na Grécia antiga muitos afirmavam que o único amor verdadeiro era o praticado entre os homens, as mulheres eram apenas procriadoras. Neste cenário todos os homens eram espíritos de mulheres em inversões dolorosas sexuais? Acredito que não.

Quando as pessoas julgam e tecem comentários sobre o homossexualismo acabam por gerá-los em função da prática sexual, como dissemos acima. Ou seja, o homossexualismo é feio porque dois homens ou duas mulheres buscam trocar carícias, buscam o prazer entre si.
Vejamos então a seguinte sentença: O sexo é para a procriação? O sexo é para a geração de filhos exclusivamente?

A resposta será não! O sexo, a relação sexual, quando feita com respeito pelo parceiro ou parceira, com amor, é uma relação que busca a troca de energias, de carícias, de prazer e também de sentimentos. Se o sexo tem esta natureza qual a diferença em ter uma relação com uma pessoa do mesmo sexo ou de sexo oposto? Na minha opinião, a diferença está na opção da pessoa, na natureza daquele espírito reencarnado que sente atração por este ou por aquele sexo.

Não estamos aqui falando de promiscuidade, de bacanais, etc., pois isto, independente se homossexuais ou se heterossexuais é uma prática que diminui a vibração, que traz obsessores e nos prende aos prazeres materiais, enfim, nos fragiliza e nos prejudica. Estamos aqui falando das relações que envolvem o sentimento do amor conjugal.

Assim, o que eu entendo é que não importa a sua opção sexual, não importa se você é um heterossexual ou um homossexual, o que importa é a tua vontade em seguir os passos de Jesus, de praticar a caridade, de amar toda a forma de vida, de buscar o fim do seu egoísmo, do seu orgulho, de sua raiva e de seu ódio. Importa que seu espírito trabalhe incansavelmente para a libertação própria e a iluminação de todos que lhe rodeiam.

Se você ama (no sentido conjugal, matrimonial do verbo) uma pessoa do mesmo sexo, ou uma pessoa do sexo oposto, deve apreciar este sentimento, deve ter com ele ou com ela uma relação de companheirismo. Buscar nesta pessoa aquela que dividirá com você as angústias e as alegrias da vida. Deus nos permite o casamento para isto; para trilharmos um caminho com outro espírito.

Ou seja, para mim, a Umbanda realiza os matrimônios, abençoa as relações não com a exclusiva intenção de colocar um macho e uma fêmea para procriarem, mas o faz para que dois espíritos possam, a partir daquele momento, dividir um só caminho. Como disse o Caboclo Mata Virgem em recente casamento em nossa casa:

“Até aqui vocês caminharam por caminhos próprios, estes caminhos se aproximaram, e hoje se unem. O que eram dois caminhos se torne um, o que eram duas chamas se torne uma.”

O matrimônio é um ato de amor, de união de espíritos para a consecução de seus objetivos com companheirismo. E é assim independente de um casamento hetero ou homoafetivo.
Neste sentido o nosso querido Preto-velho, Pai Tobias de Guiné, em recente consulta teceu o seguinte comentário:

“Vocês não param de ficar apegados a forma, ficam sempre querendo julgar um rio pela sua superfície. Dois espíritos se amam e querem compartilhar um mesmo caminho de vida, chegam a este terreiro e pedem uma benção, pedem para que realizemos seu casamento. Qual será a resposta?
Respondemos pelos espíritos ali presentes, ou vamos responder de acordo com a roupa que estão usando naquele momento? Para nós, falangeiros da Umbanda, não interessa a roupa, ou seja o corpo físico, interessa se estes espíritos se amam de verdade. Quando percebo isto, o amor, fico grato a Zambi, aos Orixás, por poder presenciar e atuar na benção deste casal.”

A homofobia e o preconceito pela opção sexual só atrasam a vida de todos, só trazem desarmonia, vibrações de ódio, e não de amor e de caridade. Neste sentido peço a todos que leiam o texto Mais uma palavra sobre preconceito, o caso ali relatado é sobre o preconceito realizado a um homoafetivo.

Será que há qualquer justificativa espiritual para este tipo de preconceito?

Assim, a opção sexual, o fato de sermos homoafetivos (homossexuais), ou heteroafetivos (heterossexuais), não faz de nós diferentes, certos ou errados, pecadores ou não pecadores. O que nos torna melhores ou piores é o que fazemos em relação à vida, em relação às pessoas, em relação aos espíritos e a nós mesmos, ou seja, quão orgulhosos, quão egoístas, quão amorosos e caridosos nós somos. Isto é o que revela a nossa natureza e não as formas, e não as aparências.

Por fim quero fazer uma última reflexão:

Na época em que Jesus viveu encarnado o pior de todos os pecados era a da mulher adúltera, ou seja, a mulher que traia o homem. Para esta mulher a condenação era o apedrejamento em praça pública, e isto esta escrito na Bíblia (antigo testamento).

O que Jesus fez ao ver uma mulher adúltera sendo apedrejada? Levantou-a, e olhou para a multidão de julgadores e disse: “atire a primeira pedra aquele que nunca pecou”. Ou seja, mesmo diante do maior pecado para seu povo, Jesus afirmou que jamais devemos julgar o nosso irmão ou nossa irmã. Com isso quero dizer que não interessa como você pensa a questão, se você concorda comigo, com a Umbanda, com os espíritas, com os demais cristãos, importa que pense como pensar, jamais julgue o seu semelhante, jamais se preocupe com o argueiro no olho do teu vizinho, e sim com a trave que cega a sua visão.

Jesus nos ensinou a amar incondicionalmente, amar a todos, até nossos inimigos, nossos queridos guias também ensinam isto para nós diariamente, vamos então praticar o amor incondicional. Ou seja, convencido da naturalidade das relações homossexuais, ou não, o que não podemos aceitar é que os umbandistas julguem, discriminem.

A Umbanda, para mim, não julga e não vê de forma anormal a homossexualidade, ou a heterossexualidade. Se esta pessoa é homo ou heterossexual, pouco importa, pois, todos somos espíritos iguais, filhos do mesmo pai, com livre arbítrio.

Para mim a Umbanda está preocupada e focada na elevação espiritual, na prática da caridade e no exercício do amor. Assim, para mim e para a Umbanda que pratico, o casamento, o matrimônio, ou a benção de casais acontece em virtude do amor conjugal, da parceria e do companheirismo, por isto, seja ele um casamento de pessoas do mesmo sexo ou de sexos biológicos diferentes, acredito que a benção, o sacramento pode e deve ser realizado.

Saravá a Umbanda, saravá o respeito e o amor entre todos os seres.

 

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