Domingo, 05 de Fevereiro de 2012

Orixá Xangô

O Orixá

 

Xangô, Orixá, dono das coroas, Rei de todos nós, senhor do equilíbrio, a Justiça de Deus sobre todos nós. Senhor das pedreiras. Salve Xangô, Kaô Kabecilê Obá!

 

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A Mitologia dos Orixás: Odus, Xangô e a Justiça


Antes, recomendo a leitura do texto Mitologia dos Orixás para que possamos entender o porquê dos mitos. Vale a pena.


Um mito yorubá traz um pouco dessa noção de justiça divina atribuída ao nosso Pai Xangô:

Durante o início dos tempos haviam 16 Odus, um deles Xangô, o odu Obará Meji. Xangô era o mais pobre dos odus, e estes com vergonha de Xangô foram visitar Deus e não convidaram Xangô. Chegando lá Deus deu a eles uma tarefa, preparar um ebó. Mas sendo ricos não sabiam cozinhar, e então nada fizeram. Xangô, ficou sabendo da visita, e descobriu a receita e logo que pode realizou o Ebó. Passado algum tempo os outros 15 odus voltaram a encontrar Deus, e Deus deu a cada um uma abóbora. Por respeito nada disseram, mas todos acharam aquilo algo por demais simples. Ao saírem perceberam que estavam com fome, muita fome, e então decidiram ir até Xangô e pedir a ele comida. Xangô os felicitou e entregou aos seus irmãos toda a sua comida, cozinhou e alimentou os irmãos. Que depois de satisfeitos foram embora, e deixaram suas abóboras para Xangô. Xangô começou a ficar com fome, mas não tinha o que comer, dera tudo a seus irmãos. Então pegou uma das abóboras cortou para comer quando então percebeu que estava recheada de pedras preciosas e jóias. Xangô abriu todas as 15 abóboras e em todas havia um tesouro. Xangô agora era mais rico dos que os 15 odus juntos. Ao perceberem isso os 15 odus foram pedir justiça a Deus, que então falou: me pedem justiça? Pois saibam que a justiça foi feita!

Este mito nos traz a idéia de que Justiça Divina, atribuída ao nosso Orixá Xangô, é a de entregar o verdadeiro tesouro, ou seja o tesouro de Deus, nas mãos daqueles que não medem esforços para amar e alimentar seus irmãos.


No mito Xangô não pensou em si ao dar o alimento aos seus irmãos, apenas viu que estavam com fome, que estavam necessitados. Pegou tudo que tinha e saciou aqueles irmãos. Mesmo depois de ter sido negado por esses mesmos odus, ter sofrido preconceito, ter sido deixado de lado. Xangô não julgou, apenas socorreu àqueles que a sua porta chegaram, sem nada pensar em troca, sem nada guardar rancor. Então Deus garantiu que Justiça fosse feita, e que Xangô recebesse pela sua benesse, pelo seu desprendimento. Garantiu um tesouro divino a Xangô.


Deus dá a nós na medida em que entregamos aos outros, pois quem socorre um filho de Deus, com certeza será socorrido pelo próprio Deus. E nada mais justo que encher de luz aqueles que fazem a vontade do Pai. Salve Xangô a manifestação da justiça divina em todos nós.


Kaô Kabecilê.



Pai Caetano de Oxossi

PS. O mito foi baseado no descrito por Reginaldo Prandi no livro “Mitologia dos Orixás”, editora Companhia das Letras.

   

A árvore da vida, a vida da Umbanda

No dia em que escrevi este texto comemorava-se o dia da árvore (21 de setembro). E estava twitando qual canário-terra sobre o tema, e no meio do gorjear no mundo virtual, falava de Iroco, da gameleira, da figueira, e de como as árvores são sagradas e merecem nosso respeito, admiração e nossa submissão. Então me veio a idéia de produzir um pequeno texto sobre as árvores e a Umbanda e as religiões em geral.

Brincando com a idéia de gorjear (canto dos pássaros, lembrando que twitter é um pequeno canto de pássaro na língua inglesa) passarei dos pequenos pios do canário-terra para outro mais audacioso, não pela beleza, mas pela extensão, não como o canto do Uirapuru, mas quem sabe como o canto de um sabiá-laranjeira.

As árvores em suas mais diversas espécies têm papel central na Umbanda. Inúmeros pontos cantados se remetem a estas maravilhas da natureza. Vamos a alguns para ilustrar nossa jornada ao mundo das árvores:


“Oxóssi, Oxóssi na raiz da gameleira, Ogum mora nas matas Pai Xangô lá nas pedreiras.”

“Filho de Oxóssi, e filho de Pemba, ai vem o Rei do Congá, ele vem com a força dos ventos, e de mãe Yemanjá,  das florestas da Jurema, na raiz do buriti, da urucaia faz suas magias, com a força de Tupi.”

“Okê, Okê Caboclo, Seu Mata Virgem é da Raiz da Urucaia...”

“Eu corri terra, eu corri mar, até que eu chegue a minha raiz, Ora viva Oxóssi na mata que a folha da mangueira ainda não caiu.”

A origem de muito dos pontos cantados está na tradição yorubá e na tradição indígena brasileira.

Folhas, raízes, árvores, floresta, mata, ilustrações das mais diversas que remetem nosso pensamento as árvores iluminam uma enormidade de Pontos Cantados.Mas não só a música vemos a idéia de árvores. Araçá, mangueira, figueira, goiabeira, jabuticabeira, ipê, jurema, araticum, entre outras espécies dão suas folhas ao axé de nossa Umbanda. Nos banhamos, nos defumamos, com a força das árvores, sem elas não teríamos nossas giras. A coletividade dessas árvores, a floresta, as matas, nos remete ao sagrado, ao mundo mágico e ritualístico, um mundo puro, nos leva à terra de Oxóssi.
Podemos dizer que a Umbanda vive debaixo de uma frondosa árvore, a árvore da vida, que nos liga aos Orixás e assim ao Pai.

Para os nossos irmãos do Candomblé de Ketu, que trazem a tradição dos povos de língua yorubá (nagôs), uma árvore se destaca: o Iroco, ou Iroko. Na África Iroco é uma espécie de árvore (chlorophora excelsa), que em alguns mitos yorubás é descrita como o caminho para que os Orixás chegassem do Orum ao Ayê, por isso Iroco é o Senhor do Tempo e do Espaço. Para estes irmãos Iroco é um Orixá, e em cada Ylê, em cada roça, há uma árvore representando este Orixá.

Como o Iroco, espécie de árvore, é nativa da África, muitos terreiros usaram as gameleiras, sejam as gameleiras (fícus doliaria) tradicionais, seja a gameleira-branca (fícus gomelleira) e em alguns outros casos a figueira-religiosa (fícus religiosa), como uma figura central e de importância ímpar, em substituição ao Iroco.

Sob a sombra de Iroco são depositados axés, entregas e pedidos, a identificação desta árvore sagrada é bem fácil, veja uma frondosa árvore, com raízes expostas e amarrada em seu caule por uma grande faixa branca.

Partindo desta tradição Yorubá quero trazer semelhanças com outras tradições para o nosso deleite e respeito às árvores. Um Iroco, ou uma gameleira, ou a figueira são árvores centenárias, multi-centenárias, ou seja, sobrevivem há muitas gerações. Por isso a representação do tempo e da ancestralidade.

Jesus Cristo para ilustrar a passagem do tempo, e profetizar, usou o nascimento dos brotos em uma figueira (Evangelhos de Lucas e Mateus), ou seja tal qual nossos irmãos africanos a árvore como a senhora do tempo. Aliás, a palavra figueira aparece em 50 textos da Bíblia.
O significado da figueira na maioria das passagens bíblicas é o povo judeu, ou ao povo de Deus. Veja a parábola dos frutos bons e ruins. Se uma figueira não produzir mais frutos bons, deve secar. Ou seja, aquele povo que não mais produzir bons frutos, amor e caridade, não terá muito tempo de sobrevivência.

Outros momentos Jesus usa a figueira como um espaço sagrado de paz, prosperidade e segurança. Quando Jesus é apresentado a João por Filipe, afirma já o vira sentado nas sombras da figueira. Este símbolo remetia a João como apóstolo, pacificador e escolhido.

Mantendo a figura de um homem sentado embaixo da figueira, como uma profetização de paz e prosperidade, passemos a observar a figueira para os Budistas. Buda alcançou a revelação e iluminação embaixo de uma figueira (fícus religiosa), árvore venerada por esta razão. Ambas as doutrinas trazem a imagem de um homem sentado embaixo da figueira, figueira esta onde os yorubás acreditam estar o Axé, onde os Orixás chegam do Orum. Incrível não é?

Ilustrando este texto, para termos uma dimensão da importância da árvore na tradição hebraico-cristã, o vocábulo "árvore" aparece mais de 119 vezes na Bíblia, sem contar as dezenas de citações envolvendo nome de árvores como a figueira, a videira, a romã, etc. (para quem quiser no final apresento alguns capítulos e versículos com algumas destas citações)

A figueira que produz o figo comestível (fícus carica), objeto da maioria das ilustrações nas parábolas de Jesus Cristo, tem para os judeus um destaque. O figo é um dos 7 alimentos sagrados que crescerão na Terra Prometida (Torá – Deut.8). (Os outros seis alimentos são cevada, trigo, uva, romã, oliva e tâmara).

Desta mesma figueira encontraremos a “roupa” de Adão. Foi com as folhas da figueira que Adão encobriu seu nu (Gênesis). A figueira é uma das três árvores do jardim do Édem, as outras duas eram a árvore da vida e a árvore do bem e do mal (Gênesis).  

A arca de Noé teria sido construída com madeira proveniente da figueira, e assim vamos longe.  Árvore, vida, profetas, iluminação, axé, paz, a sensação de sombra e água fresca.

A semelhança entre as diversas tradições religiosas produz momentos interessantes. Quem for visitar (recomendo a viagem) a Ilha de Campeche em Florianópolis se deparará com uma enorme e frondosa figueira olhando e zelando por todos os barcos que chegam. Os guias afirma que as figueiras da ilha, exóticas (ou seja, não eram naturais daquele local), foram levadas e plantadas pelos escravos negros. Na explicação uma das guias falava que os negros haviam sido catequizados e traziam as figueiras para simbolizar a visão profética de Jesus.

Imediatamente abri um sorriso, olhei para a árvore e senti uma força de Exu incrível, não me contive e falei. “A figueira está aqui porque é sagrada, é morada de axé, força de Orixá, planta sagrada de Exu”, e rapidamente contei um pouco do que sabia, que já era pouco, sobre a importância desta árvore para os cultos de nação e para os candomblés.

No centro de Curitiba, praça Tiradentes, existem frondosas árvores que ao que tudo indicam são Irocos, ou seja, marcam a presença dos negros e do axé, justamente no entorno da Igreja mais antiga da cidade, a basílica de Nossa Senhora dos Pinhais!

Rapidamente pode-se ver que as árvores estão presentes nas mais diversas tradições. E desta afirmação surge um pensamento que me intriga:

Como é possível ao ver que todas as tradições ocidentais e orientais tratam a árvore como elemento sagrado, como morada de Deus, como espaço para iluminação, e ainda não cuidamos das florestas? Como não garantirmos que as reservas florestais de nosso país e de nosso mundo sejam preservadas?

A Umbanda é para mim a figueira frondosa sob a qual me sento, sob a qual medito, bebo da água que cai de suas folhas, como de seus frutos, recebo o axé de sua vida, e de seus galhos e troncos recebo proteção.

Sarava e bom dia da árvore para todos.



Pai Caetano de Oxóssi



Textos bíblicos

É árvore de vida para os que dela tomam, e são bem-aventurados todos os que a retêm
(Provérbios 3:18)



Passagens da bíblia (Mateus 7:17-19, 12:33, 3:10, Ezequiel 17:24, Gênesis 2:16e17, 3:11 e 12, 18:4, 3:3, 18:8, Jó 19:10, 14:7, 24:20, Provérbios 3:16, 13:12, 15:4, 11:30, Lucas 22:2, 2:7, 7:1, 22:14, Eclesiastes 11:3, Deuteronômio 12:2, 2 Crônicas28:4, Isaías 57:5, Daniel 4:14, 4:20, 4:26, 2Reis 16:4, Salmos 37:35, Juízes,9:48, Jeremias 11:19, 17:8, êxodo 15:25, Josué 8:29, Levítico 19:23, Joel 2:22, 2 Samuel 18:14, entre outros)

   

O Pai (Mãe) de Cabeça - os Caboclos da Umbanda


Na raiz de Umbanda a qual pertenço apenas um caboclo pode assumir a cabeça de um filho. Ou seja, o representante do Orixá Ancestral na coroa de uma pessoa será sempre um caboclo.


Entender esta afirmação é entender que para nós um preto-velho, uma criança não assumem a cabeça de um filho. Para nós os Pretos-velhos são os grandes administradores da Umbanda, gerenciam os trabalhos, cuidam da integração, do andamento das energias. Já as crianças são as responsáveis pela ativação, busca e controle das energias elementais, dos espíritos elementares para a magia dos terreiros.


O fato de não assumirem a cabeça de um filho não os deixa menores ou menos importantes, mas demonstram como na Umbanda há uma harmonia e uma divisão das tarefas, aliás, esta harmonia é presidida e zelada pelos Pretos-velhos.


Os caboclos representam a força dos Orixás na Terra, trazem a vontade dos Orixás para nós, e, portanto, são os representantes dos Orixás nos terreiros e nas coroas. Assim, em nossas casas sempre terá a chefia da gira e do terreiro um caboclo ou uma cabocla.


O chefe do terreiro será sempre o representante do Orixá na cabeça do Pai de Santo ou Mãe de Santo, é o que chamamos de pai de cabeça ou mãe de cabeça. Assim se o Pai de Santo é filho de Oxóssi (o pai de santo fundador da casa) a entidade chefe será um representante de Oxóssi. Se o terreiro é de Ogum, a entidade chefe da gira e do terreiro será um caboclo ou uma cabocla de Ogum, o mesmo ocorrendo com Oxóssi, Yemanjá, Iansã, Oxalá, Xangô e Oxum.  Os assentamentos são seguidos segundo o Orixá sob a decisão final da entidade chefe do terreiro, portanto de um caboclo ou de uma cabocla.


Costumo dizer que o terreiro é do Pai Tobias de Guiné, e a chefia do terreiro é do caboclo Mata Virgem. Ou seja, há uma interação estreita entre estas entidades que chefiam a nossa casa, mas a gira é de Oxóssi, e, portanto a chefia cabe a um caboclo de Oxóssi, no caso nosso seu Mata Virgem.


Qual a razão dos caboclos terem esta atribuição? Fiz este questionamento aos nossos guias e a resposta foi a seguinte:


“Os donos da terra sempre serão os representantes dos Orixás naquela terra, se a Umbanda fosse da África os representantes dos Orixás na cabeça dos filhos seriam os pretos-velhos. Aliás,nos cultos do povo Bantu é exatamente isso que acontece, os representantes dos Nkices são ancestrais daquele povo, nos nagôs os Orixás são, representativamente, grandes reis ou rainhas. No Brasil os donos são os indígenas, assim a terra daqui precisa desses ancestrais para manifestar a força dos Orixás nas cabeças de vocês.” Pai Tobias de Guiné

Aliás, iniciamos nossa gira com uma cantiga que fala "...gira, gira dos caboclos, sem sua gira eu não posso trabalhar, assim, assim na fé de Oxóssi meu Pai, sem sua gira eu não posso trabalhar." Uma demonstração clara de que para nós Oxóssi enviou um caboclo para ser seu representante na Terra e chefiar nossa Gira.


Em nenhum momento há a prevalência, repito, de uma entidade sobre a outra, de uma forma de apresentação sobre a outra. O que nós apresentamos é apenas uma forma de distribuição de funções seguindo um entendimento de nossa raiz, avaliado e confirmado pelas entidades que nos orientam e chefiam nossa casa.  A Umbanda, assim, mais uma vez dá a demonstração de sua ligação íntima com a natureza, com a ancestralidade, mostrando sua riqueza e a profundidade de seus fundamentos e elementos.


Talvez muitas coisas ainda não possamos entender, mas com o passar do tempo muitas se revelarão, e tenho a certeza que cada passo nesta direção fortalecerá nossa crença, nossa fé e consolidará a Umbanda em espaços cada vez mais amplos.


Autor: Pai Caetano de Oxossi

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Quem sou eu!!


Caetano de Oxossi

Dirigente do Terreiro de Umbanda Luz, Amor e Paz - Cabana do Pai Tobias de Guiné. Estudante e aprendiz de nossa querida Umbanda 

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Este é um espaço para que possamos debater e aprofundar nossos conhecimentos, resolver nossas dúvidas sobre Umbanda, e sobre religiões. Seu papel na libertação e na iluminação de nossos espíritos, sua função no Brasil e como funciona esta religação entre nós e o Criador.


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